quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Superando a limitação

  • Surge um momento na vida de cada um de nós em que perseguimos o crescimento e a expansão no nível da forma. Isso acontece quando nos esforçamos para superar limitações, como fraqueza física ou carência financeira, quando adquirimos novas habilidades e ampliamos nossos conhecimentos ou quando, por meio de uma ação criativa, trazemos ao mundo algo diferente que tenha a capacidade de melhorar tanto nossa vida quanto a dos outros. Pode ser uma composição musical, uma obra de arte, um livro, um serviço que prestamos, uma função que desempenhamos e ainda uma organização que criamos ou para a qual destinamos uma contribuição essencial.

  •  Sempre que estamos presentes, isto é, toda vez que nossa atenção está toda no Agora, essa presença flui para aquilo que fazemos e o transforma. Há qualidade e poder no que executamos. Estamos presentes quando o que realizamos não é basicamente um meio para atingir um fim (dinheiro, prestígio, vitória), mas gratificante por si mesmo; quando existe alegria e vida no que realizamos. E, é claro, não podemos estar presentes a menos que nos tornemos receptivos ao Agora. Essa é a base da ação eficaz, não contaminada pelo negativismo.

  •  Forma significa limitação. Estamos aqui não só para vivenciar as limitações como para ampliar nossa consciência por meio da superação das coisas que nos restringem. Algumas delas podem ser ultrapassadas num nível externo. Mas talvez haja outras com as quais precisemos aprender a conviver - só conseguiremos vencê-las internamente. Mais cedo ou mais tarde, todas as pessoas as encontram. Da mesma maneira que as limitações podem nos manter presos à reação egóica, que corresponde à infelicidade intensa, nós somos capazes de sobrepujá-las no nível interno nos rendendo de modo incondicional ao que quer que elas sejam. É isso que elas nos ensinam. O estado de rendição da consciência abre a dimensão vertical na nossa vida, a dimensão da profundidade. Alguma coisa sairá dali para o mundo, algo de um valor infinito que, de outro modo, teria permanecido sem se manifestar. Algumas pessoas que se entregaram a uma limitação significativa se tornaram agentes de cura ou mestres espirituais. Outras trabalham com abnegação para minorar o sofrimento humano ou compartilhando um dom criativo.

  •  No final da década de 1970, eu almoçava todos os dias com um ou dois amigos no restaurante do centro de graduação da Universidade de Cambridge, onde estudava. Havia um homem numa cadeira de rodas que algumas vezes se sentava próximo a nós, em geral acompanhado de três ou quatro pessoas. Um dia, quando ele estava sentado à mesa diretamente oposta à minha, não pude deixar de observá-lo com mais atenção e fiquei chocado com o que vi. Seu corpo parecia quase todo paralisado. Magro ao extremo, a cabeça pendendo para frente. Um de seus acompanhantes colocava a comida na sua boca com todo o cuidado, porém uma grande parte dela sempre caía de volta no pratinho que outra pessoa segurava embaixo do queixo dele. De vez em quando, o homem emitia sons roucos ininteligíveis. Então alguém aproximava o ouvido da sua boca e, de forma incrível, interpretava o que ele estava tentando dizer.

  •  Mais tarde, perguntei ao meu amigo se ele sabia quem era aquele homem. "Claro que sei. É um professor de matemática. As pessoas que o acompanham são seus alunos de graduação. Ele tem uma doença degenerativa que paralisa progressivamente todos os músculos do corpo. Viverá no máximo uns cinco anos. Essa deve ser uma das mais terríveis fatalidades que podem recair sobre um ser humano."

  •  Poucas semanas depois, eu estava saindo do prédio enquanto ele estava entrando. No momento em que segurei a porta para que a cadeira de rodas elétrica pudesse passar, nossos olhares se cruzaram. Com surpresa, vi que os olhos dele estavam límpidos. Não mostravam nenhum sinal de infelicidade. Percebi no ato que aquele homem havia abandonado a resistência - estava vivendo no estado de rendição. 

  •  Anos depois, enquanto comprava um jornal numa banca, fiquei impressionado ao vê-lo na primeira página de uma renomada revista internacional. Ele não só continuava vivo como tinha se tornado o mais célebre físico teórico do mundo, Stephen Hawking. Havia uma bela frase no artigo que confirmava o que eu sentira quando nossos olhos se cruzaram muitos anos antes. Comentando a própria vida, ele disse (agora por meio de um sintetizador de voz): "Quem poderia querer mais?"