sábado, 2 de novembro de 2013

Papéis Preestabelecidos

  • É claro que pessoas diferentes desempenham funções distintas neste mundo. Não poderia ser de outra maneira. No que se refere à capacidade intelectual e física - conhecimento, habilidades, talentos e níveis de energia -, os seres humanos apresentam desigualdades significativas. O que importa não é a função que cumprimos, mas se nossa identificação com ela chega a tal ponto que nos envolve e se torna um papel que interpretamos. Sempre que assumimos papéis, estamos inconscientes. No instante em que nos flagramos fazendo isso, esse reconhecimento cria um espaço entre nós e o papel. E o começo da libertação. Quando estamos identificados ao máximo com um papel, confundimos um padrão de comportamento com quem nós somos e nos levamos muito a sério. Também designamos automaticamente para os outros funções que se ajustam às nossas. Por exemplo, quando nos consultamos com médicos que se identificam de forma total com sua profissão, para eles não somos seres humanos, e sim pacientes ou casos clínicos.

  •  Embora as estruturas sociais do mundo contemporâneo sejam menos rígidas do que as das culturas antigas, ainda existem muitas funções (ou papéis) preestabelecidas com as quais as pessoas se identificam de imediato e que, assim, se transformam numa parte do ego. Isso faz com que as interações humanas sejam privadas de sua autenticidade e se tornem desumanas e alienantes. Os papéis predeterminados podem nos dar uma sensação de identidade relativamente agradável, mas, no fim das contas, nos perdemos em meio a eles. As funções exercidas em organizações hierarquizadas, como os meios militares, a Igreja, instituições governamentais e grandes corporações, tendem a fazer com que as pessoas se tornem identidades representadas. As relações humanas genuínas passam a ser impossíveis quando nos confundimos com um papel. 

  •  Há papéis preestabelecidos que podemos chamar de arquétipos sociais. Alguns deles são: o de esposa de classe média (não tão comum quanto costumava ser, mas ainda disseminado); o do machão; a da mulher sedutora; o do artista "não-conformista"; e o de uma pessoa "culta", aquela que exibe seus conhecimentos de literatura, artes plásticas e música da mesma maneira que outros indivíduos ostentam uma roupa sofisticada ou um automóvel caro. Há também o papel universal do adulto. Quando o representamos, o que predomina na visão que temos de nós mesmos e da vida é a seriedade A espontaneidade, a descontração e a alegria não fazem parte dessa interpretação.

  •  O movimento hippie, que se originou na Costa Oeste dos Estados Unidos na década de 1960 e depois se difundiu pelo mundo ocidental, surgiu da rejeição que muitos jovens da época manifestaram contra arquétipos sociais, papéis, padrões preestabelecidos de comportamento e estruturas sociais e econômicas baseadas no ego. Eles se recusavam a desempenhar os papéis que os pais e a sociedade queriam lhes impor. Esse movimento coincidiu com os horrores da Guerra do Vietnã. Durante esse conflito morreram mais de 57 mil jovens americanos e 3 milhões de vietnamitas. Por meio dele, a insanidade do sistema e do modelo mental dominante ficou explícita. Nos anos 1950, a maioria dos americanos ainda era extremamente conformista em sua forma de pensar e agir, mas, na década seguinte, milhões deles começaram a rejeitar sua identificação com uma identidade conceituai coletiva cuja loucura se tornara óbvia. O movimento hippie representou um afrouxamento das estruturas egóicas rígidas que até então predominavam na psique da humanidade. Embora tenha se deturpado e acabado, ele deixou uma abertura, e não só para seus seguidores. Seu surgimento permitiu que a antiga sabedoria e a espiritualidade oriental entrassem no Ocidente e cumprissem uma função essencial no despertar da consciência mundial.