sábado, 2 de novembro de 2013

Reconhecendo nossos filhos

  • Nós somos seres humanos. O que isso significa? O domínio da vida não é uma questão de controle, e sim de encontrar um equilíbrio entre o humano e o Ser. Mãe, pai, marido, esposa, jovem, velho, os papéis que interpretamos, as funções que desempenhamos, o que quer que façamos - tudo isso pertence à dimensão humana, tem sua importância e precisa ser respeitado. No entanto, em si mesmas, essas coisas não são suficientes para nos proporcionar uma vida plena nem relacionamentos significativos. O humano apenas nunca é o bastante, não importa quanto nos esforcemos nem o que sejamos capazes de conquistar. Porém, há também o Ser. Ele se encontra na presença calma, alerta da Consciência em si, a Consciência que nós somos. O humano é forma. O Ser é sem forma. O humano e o Ser não estão separados, mas interligados. 

  •  Na dimensão humana, somos, sem dúvida, superiores aos nossos filhos. Somos maiores, mais fortes, sabemos mais e conseguimos fazer mais. Se essa dimensão for tudo o que conhecemos, então nos veremos acima deles, ainda que de modo inconsciente. E faremos com que se sintam inferiores, ainda que de modo inconsciente também. Não existe igualdade entre nós e eles porque só existe forma nesse relacionamento - e na forma, é claro, não somos semelhantes. Podemos amá-los, contudo nosso amor é apenas humano, isto é, condicional, possessivo, intermitente. Apenas além da forma, no Ser, nós somos iguais. E somente quando encontramos a dimensão sem forma em nós mesmos é possível haver amor verdadeiro nessa relação. A presença que nós somos, o "eu sou" eterno, reconhece a si mesma em outro indivíduo, e este - neste caso, o filho - se sente amado, ou seja, reconhecido.

  •  Amar é reconhecermos a nós mesmos no outro. A alteridade então se revela uma ilusão que pertence ao reino puramente humano, o reino da forma. O anseio por amor que existe em toda criança é o anseio por ser reconhecida não no nível da forma, mas no plano do Ser. Quando os pais distinguem apenas a dimensão humana das crianças e negligenciam o Ser, elas sentem que o relacionamento é insatisfatório, que algo essencial está faltando. Assim, poderão acumular dor e, algumas vezes, até um ressentimento inconsciente em relação aos pais. "Por que vocês não me reconhecem?" Isso é o que a dor e o ressentimento parecem dizer.

  •  Sempre que alguém nos reconhece, isso traz a dimensão do Ser mais plenamente para o mundo por meio de nós dois. Esse é o amor que redime o mundo. Tenho falado sobre isso de modo mais específico no que se refere aos filhos, porém essa é uma questão que se aplica a todos os relacionamentos.

  •  Diz-se que "Deus é amor", no entanto isso não está certo. Deus é a Vida Única que está nas incontáveis formas de vida e além delas. O amor implica dualidade: quem ama e quem é amado, sujeito e objeto. Portanto, ele é o reconhecimento da unicidade no mundo da dualidade. Isso é o nascimento de Deus no mundo da forma. O amor torna o mundo menos "terreno", menos denso, mais transparente para a dimensão divina, a própria luz da consciência.

Paternidade e Maternidade conscientes

  • Muitos filhos guardam raiva ou ressentimento dos pais. A causa disso costuma ser a falta de autenticidade do relacionamento. O filho tem um profundo desejo de que o pai e a mãe estejam presentes como seres humanos, e não como papéis, não importa com que grau de consciência essa interpretação esteja sendo feita. Podemos estar realizando tudo o que é certo e da melhor forma possível para nosso filho - ainda assim, fazer o melhor não é o bastante. Na verdade, fazer nunca é o suficiente se negligenciamos o Ser. O ego não sabe nada do Ser, porém acredita que acabaremos sendo salvos porque "fazemos". Quando estamos sob seu domínio, acreditamos que, realizando mais e mais, vamos acabar acumulando "feitos" suficientes para nos sentir completos em determinado momento no futuro. Não, não vamos. Tudo o que conseguiremos com toda essa ação será nos perder de nós mesmos. A civilização inteira está desorientada por fazer aquilo que, por não ter raízes no Ser, se torna inútil.

  •  Como levamos o Ser para a vida de uma família atarefada, para o relacionamento com nossos filhos? A chave é lhes dar atenção. Existem dois tipos de atenção. Um deles podemos chamar de atenção baseada na forma. O outro é a atenção sem forma. A atenção baseada na forma está sempre vinculada de alguma maneira a fazer ou avaliar. "Já fez sua lição de casa? Coma tudo. Arrume seu quarto. Escove os dentes. Faça isso. Pare de fazer aquilo. Vamos logo, apronte-se."

  •  Qual é a próxima tarefa? Essa pergunta resume muito bem aquilo com o que a vida familiar se parece num grande número de lares. A atenção baseada na forma é necessária e tem seu lugar. Porém, se ela for tudo o que existe no relacionamento com os filhos, é porque a dimensão essencial está faltando e o Ser se torna completamente obscurecido pelo fazer, pelas "preocupações mundanas", como Jesus observou. A atenção sem forma é inseparável da dimensão do Ser. Como ela funciona?

  •  Enquanto observamos, escutamos, tocamos ou ajudamos nossos filhos, permanecemos atentos, calmos, inteiramente presentes tudo o que queremos é aquele instante como ele é. Dessa maneira, damos lugar ao Ser. Nesse momento, se estamos presentes, não somos o pai nem a mãe, e sim a atenção, a calma, a presença que está escutando, olhando, tocando e até mesmo falando. Somos o Ser por trás do fazer.

Sofrimento consciente

  • Se você tem filhos pequenos, ofereça-lhes toda a ajuda, orientação e proteção que estiver ao seu alcance. Contudo, mais importante ainda é: dê- lhes espaço - espaço para que possam existir. Você os trouxe ao mundo, mas eles não são "seus". A crença "Eu sei o que é melhor para você" pode ser adequada quando as crianças são muito pequenas; porém, à medida que elas crescem, essa idéia vai deixando de ser verdadeira. Quanto mais expectativas você tiver em relação ao rumo que a vida delas deve tomar, mais estará sendo guiado pela sua mente em vez de estar presente para elas. No fim das contas, seus filhos cometerão erros e sentirão algum tipo de sofrimento, assim como acontece com todos os seres humanos. Na realidade, talvez eles estejam equivocados apenas do seu ponto de vista. O que você considera um erro pode ser exatamente aquilo que seus filhos precisam fazer ou sentir. Proporcione o máximo de ajuda e orientação, porém entenda que às vezes você terá que permitir que eles falhem, sobretudo quando estiverem se tornando adultos. Pode ser que às vezes você também tenha que deixá-los sofrer. A dor pode surgir na vida deles de repente ou como uma conseqüência dos seus próprios erros. 

  •  Não seria maravilhoso se você pudesse poupá-los de todo tipo de dissabor? Não, não seria. Eles não evoluiriam como seres humanos e permaneceriam superficiais, identificados com a forma exterior das coisas. A dor nos leva mais fundo. O paradoxo é que, apesar de ser causada pela identificação com a forma, ela também corrói essa identificação. Uma grande parte do sofrimento é provocada pelo ego, embora, no fim das contas, ele destrua o ego -mas não até que estejamos sofrendo conscientemente. 

  •  A humanidade está destinada a superar o sofrimento, contudo não da maneira como o ego imagina. Um dos seus numerosos pressupostos errôneos, um dos seus muitos pensamentos enganosos é: "Eu não deveria ter que sofrer." Algumas vezes, essa idéia é transferida para alguém próximo a nós: "Meu filho não deveria ter que sofrer." Esse pensamento está na raiz do sofrimento, que tem um propósito nobre: a evolução da consciência e o esgotamento do ego. O homem na cruz é uma imagem arquetípica. Ele é todo homem e toda mulher. Quando resistimos ao sofrimento, o processo se torna lento porque a resistência cria mais ego para ser eliminado. No momento em que o aceitamos, porém, o processo se acelera porque passamos a sofrer de modo consciente. Conseguimos aceitar a dor para nós mesmos ou para outra pessoa, como um filho ou um dos pais. Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da consciência.

  •  O ego diz: "Eu não deveria ter que sofrer", e esse pensamento aumenta nossa dor. Ele é uma distorção da verdade, que é sempre paradoxal. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceitá-lo.

Paternidade e maternidade:Papel ou função?

  • Muitos adultos interpretam papéis quando falam com os filhos pequenos. Usam palavras e sons idiotas. Tratam a criança com superioridade, e não de igual para igual. O fato de que, temporariamente, sabemos mais ou somos maiores não quer dizer que a criança não seja igual a nós. A maioria dos adultos, em determinada altura da vida, encontra-se no papel de pai ou mãe, que é universal. A questão da maior importância é: somos capazes de desempenhar essa função e de executá-la bem Bem nos identificarmos, isto é, sem que ela se torne um papel? Parte da função necessária de ser pai ou mãe é atender as necessidades da criança, impedindo que ela corra perigo. E, às vezes, dizer-lhe o que fazer e o que não fazer. No entanto, quando ser pai ou mãe se torna uma identidade, ou seja, sempre que nossa percepção do eu é, totalmente ou em grande parte, extraída disso, a função ganha uma ênfase exagerada e nos domina. Prover as necessidades dos filhos assume proporções excessivas e os torna mimados, enquanto impedi-los de correr perigo se transforma em superproteção e interfere na necessidade que eles sentem de explorar o mundo e experimentar coisas novas por si mesmos. Dizer às crianças o que fazer e o que não fazer passa a ser controlar, reprimir. 

  • Além disso, a identidade que interpreta um papel permanece atuante por um longo tempo, mesmo depois que essas funções em particular já não são mais necessárias. Assim, pais e mães não conseguem deixar de ser pais até mesmo quando o filho já é adulto. Eles não são capazes de se desvincular da necessidade de serem imprescindíveis a ele. Ainda que o filho já tenha 40 anos de idade, não conseguem abandonar a idéia "eu sei o que é melhor para você". O papel de pai e mãe continua a ser interpretado compulsivamente, por isso não existe um relacionamento autêntico. Os pais se definem por esse papel e, de forma inconsciente, têm medo de perder a identidade se o abandonarem. Se seu desejo de controlar ou influenciar as ações do filho adulto é contrariado - como costuma acontecer -, eles começam a criticar ou mostrar sua desaprovação ou tentam fazer com que o filho se sinta culpado, tudo numa tentativa não consciente de preservar seu papel, sua identidade. A impressão é de que estão preocupados com o filho, e eles próprios acreditam nisso, mas, na verdade, sua intenção é apenas conservar seu papel-identidade. Todas as motivações egóicas são voltadas para a autovalorização e o interesse do próprio eu - e algumas vezes elas se disfarçam de forma muito inteligente, até mesmo para a pessoa em quem o ego está atuando. 

  •  Os pais que se identificam com esse papel também podem tentar se tornar mais completos por meio dos filhos. Assim, a necessidade que o ego tem de manipular os outros para que satisfaçam seu contínuo sentimento de carência é dirigida a eles. Se a maioria dos pressupostos e das motivações inconscientes por trás da compulsão dos pais de manipular os filhos se tornasse consciente e fosse dita, provavelmente incluiria algumas mensagens como estas, senão todas elas: "Quero que você alcance o que eu nunca consegui. Desejo que você seja alguém aos olhos do mundo para que eu também possa ser alguém por seu intermédio. Não me decepcione. Eu me sacrifiquei tanto por você. O objetivo da minha desaprovação em relação a você é fazê-lo se sentir tão culpado e constrangido que, finalmente, atenda meus desejos. Sem contar que sei o que é melhor para você. Eu o amo e continuarei amá-lo se você fizer o que sei que é certo para sua vida."

  •  Quando fazemos com que essas motivações se tornem conscientes, constatamos na hora quanto elas são absurdas. O ego que está por trás delas fica visível, assim como seu distúrbio. Alguns pais com quem falei compreenderam imediatamente: "Meu Deus, era isso o que eu vinha fazendo?" Depois que vemos o que estamos fazendo ou fizemos, percebemos também a futilidade de tudo isso, e esse padrão inconsciente chega ao fim por si mesmo. A consciência é o maior agente para a mudança

  • . Se seus pais estão agindo assim com você, não lhes diga que eles estão inconscientes e que são subjugados pelo ego. É provável que essa afirmação os deixe ainda mais inconscientes, pois o ego adotará uma postura defensiva. Basta que você reconheça que isso é o ego dentro deles e não o que eles são. Os padrões egóicos, até mesmo os mais antigos, algumas vezes se dissolvem de uma forma quase milagrosa quando não nos opomos a eles internamente. A oposição lhes dá uma força renovada. No entanto, ainda que não desapareçam, você será capaz de aceitar o comportamento dos seus pais com compaixão, sem a necessidade de reagir a ele, isto é, sem personalizá-lo. 

  •  Tome consciência também dos pressupostos ou das expectativas inconscientes que estão por trás das suas antigas e habituais reações a seus pais. "Eles deveriam aprovar o que eu faço. Tinham que me entender e me aceitar como sou." Verdade? Por quê? O fato é que eles não aceitam porque não conseguem. Sua consciência está em evolução, ainda não deu o salto quântico para o nível de estar ciente. Eles ainda não são capazes de abandonar a identificação com seu papel. E você dirá: "Sim, mas não posso me sentir feliz e à vontade com quem eu sou, a menos que tenha a aprovação e a compreensão deles." Verdade? Que diferença faz a aprovação ou a desaprovação deles em relação a quem você é? Todos esses pressupostos não analisados causam um grande número de emoções negativas, uma significativa quantidade de infelicidade desnecessária.

  •  Fique alerta. Será que alguns dos pensamentos que passam pela sua cabeça são a voz interiorizada do seu pai ou da sua mãe dizendo talvez algo parecido com "Você não é bom o bastante, nunca chegará a ser alguma coisa" ou fazendo outro julgamento mental? Se você estiver consciente, será capaz de reconhecer essa voz pelo que ela é: um velho pensamento condicionado pelo passado. Além disso, não precisará mais acreditar em todos os seus pensamentos. Verá que se trata de algo antigo, nada mais. Consciência significa presença, e apenas ela pode dissolver o passado inconsciente dentro de nós

  • . "Se você pensa que é tão iluminado, passe uma semana com seu pais", disse o mestre espiritual Ram Dass. Esse é um bom conselho. O relacionamento com os pais não só é a interação primordial que dá o tom para todas as interações subseqüentes como também se constitui num bom teste para nosso grau de presença. Quanto maior for o passado compartilhado existente num relacionamento, mais presentes precisamos estar. Caso contrário, seremos forçados a reviver o passado repetidas vezes.

A felicidade como um papel versus a felicidade verdadeira

  • - Como vai você? 

  •  - Ótimo. Não poderia estar melhor. . 

  • Verdadeiro ou falso?

  •  Em muitos casos, a felicidade é um papel que as pessoas representam. Um exterior sorridente pode ocultar um grande sofrimento. Depressão, esgotamento e reações exageradas são comuns quando a infelicidade é encoberta por sorrisos, sempre que há negação, algumas vezes até mesmo para si próprio, de que existe muita infelicidade. 

  •  Quando nos sentimos infelizes, primeiro precisamos reconhecer esse fato. E nunca afirmarmos: "Sou infeliz." A infelicidade não tem nada a ver com quem nós somos. Se você estiver passando por isso, diga: "Há infelicidade em mim." Depois, analise o que está acontecendo na sua vida. Uma situação em que você se encontra pode ter algo a ver com essa sensação. Talvez seja preciso fazer alguma coisa para mudá-la ou para sair dela. Se não houver nenhuma solução ao seu alcance, encare isso e afirme: "Bem, é o que está acontecendo neste momento. Não posso nem aceitar isso nem me sentir infeliz." A causa primária da infelicidade nunca é a situação, mas nossos pensamentos sobre ela. Portanto, tome consciência dos pensamentos que estão lhe ocorrendo. Separe-os da situação, que é sempre neutra - ela é como é. Existe a circunstância ou o fato, e você terá seus pensamentos a respeito deles. Em vez de criar histórias, atenha-se aos fatos. Por exemplo: "Estou arruinado" é uma história. Ela limita a pessoa e a impede de tomar uma providência eficaz. "Tenho 50 centavos na minha conta" é um fato. Encarar os fatos é sempre fortalecedor. Tome consciência de que, na maioria das vezes, o que você pensa é o que cria suas emoções - observe a ligação entre eles. Em vez de ser seus pensamentos e suas emoções, seja a consciência por trás deles.

  •  Não busque a felicidade. Se fizer isso, não a encontrará porque buscar é a antítese dela. A felicidade é sempre evasiva, contudo você pode se libertar da infelicidade agora, encarando-a em vez de criar histórias sobre ela. A infelicidade encobre nosso estado natural de bem-estar e nossa paz interior, que são a origem da verdadeira felicidade.

O monge com as palmas das mãos suadas

  • Kasan, um mestre e monge zen, ia oficiar o funeral de um nobre famoso. Enquanto esperava pela chegada do governador da província e de outros senhores e senhoras, percebeu que estava com as palmas das mãos suadas. 

  •  No dia seguinte, ele reuniu seus discípulos e confessou que não estava pronto para ser um professor de verdade. Explicou-lhes que ainda não conseguia adotar o mesmo tipo de comportamento diante de todos os seres humanos, fosse a pessoa um mendigo ou um rei. Não era capaz de considerar os papéis sociais e as identidades conceituais e ver a igualdade do ser em todos os indivíduos. Depois, ele partiu e se tornou o aprendiz de outro mestre. Oito anos mais tarde, retornou iluminado à companhia de seus antigos discípulos.

Papéis Temporários

  • Se estivermos despertos o bastante, conscientes o suficiente, para sermos capazes de observar como interagimos com as pessoas, conseguiremos detectar mudanças sutis na nossa fala, na nossa atitude e no nosso comportamento, dependendo do indivíduo com quem estivermos em contato. A princípio, pode ser mais fácil observarmos isso nos outros, porém, depois, também constataremos isso em nós mesmos. A maneira como falamos com o presidente da empresa pode ser sutilmente diferente do modo como nos dirigimos ao faxineiro. A forma como conversamos com uma criança talvez não seja igual à maneira como nos comunicamos com um adulto. Por que isso acontece? Nós interpretamos papéis. Não somos nós mesmos, nem com o presidente, nem com o faxineiro, nem com a criança. Quando entramos numa loja, num restaurante, num banco, num posto do correio, podemos estar nos encaixando em papéis sociais preestabelecidos. Acabamos nos tornando um cliente e falando e agindo como tal. E, nessa condição, seremos atendidos pelo vendedor, pelo garçom ou pelo recepcionista, que também estarão desempenhando um papel. Uma série de padrões condicionados de comportamento entra em ação entre duas pessoas para determinar a natureza da interação. Os elementos que estão interagindo não são os seres humanos, e sim imagens mentais conceituais. Quanto mais identificadas as pessoas estão com seu respectivos papéis, menos autênticos se tornam os relacionamentos. 

  •  Temos uma imagem mental não só de quem a outra pessoa é, mas também de quem nós somos, sobretudo em relação ao indivíduo com quem estamos interagindo. Portanto, não somos nós que estamos nos relacionando com aquela pessoa: quem pensamos que somos é que está se relacionando com quem acreditamos que a outra pessoa é e vice-versa. A imagem conceituai que nossa mente gerou de nós mesmos está se relacionando com sua própria criação, que é a imagem conceituai que ela produziu da outra pessoa. A mente da outra pessoa provavelmente fez a mesma coisa, então cada interação egóica entre dois indivíduos é, na realidade, a interação entre quatro identidades conceituais produzidas pela mente que são, em última análise, fictícias. Portanto, não é de surpreender que haja tanto conflito nos relacionamentos. Não existe nenhuma relação verdadeira.

Papéis Preestabelecidos

  • É claro que pessoas diferentes desempenham funções distintas neste mundo. Não poderia ser de outra maneira. No que se refere à capacidade intelectual e física - conhecimento, habilidades, talentos e níveis de energia -, os seres humanos apresentam desigualdades significativas. O que importa não é a função que cumprimos, mas se nossa identificação com ela chega a tal ponto que nos envolve e se torna um papel que interpretamos. Sempre que assumimos papéis, estamos inconscientes. No instante em que nos flagramos fazendo isso, esse reconhecimento cria um espaço entre nós e o papel. E o começo da libertação. Quando estamos identificados ao máximo com um papel, confundimos um padrão de comportamento com quem nós somos e nos levamos muito a sério. Também designamos automaticamente para os outros funções que se ajustam às nossas. Por exemplo, quando nos consultamos com médicos que se identificam de forma total com sua profissão, para eles não somos seres humanos, e sim pacientes ou casos clínicos.

  •  Embora as estruturas sociais do mundo contemporâneo sejam menos rígidas do que as das culturas antigas, ainda existem muitas funções (ou papéis) preestabelecidas com as quais as pessoas se identificam de imediato e que, assim, se transformam numa parte do ego. Isso faz com que as interações humanas sejam privadas de sua autenticidade e se tornem desumanas e alienantes. Os papéis predeterminados podem nos dar uma sensação de identidade relativamente agradável, mas, no fim das contas, nos perdemos em meio a eles. As funções exercidas em organizações hierarquizadas, como os meios militares, a Igreja, instituições governamentais e grandes corporações, tendem a fazer com que as pessoas se tornem identidades representadas. As relações humanas genuínas passam a ser impossíveis quando nos confundimos com um papel. 

  •  Há papéis preestabelecidos que podemos chamar de arquétipos sociais. Alguns deles são: o de esposa de classe média (não tão comum quanto costumava ser, mas ainda disseminado); o do machão; a da mulher sedutora; o do artista "não-conformista"; e o de uma pessoa "culta", aquela que exibe seus conhecimentos de literatura, artes plásticas e música da mesma maneira que outros indivíduos ostentam uma roupa sofisticada ou um automóvel caro. Há também o papel universal do adulto. Quando o representamos, o que predomina na visão que temos de nós mesmos e da vida é a seriedade A espontaneidade, a descontração e a alegria não fazem parte dessa interpretação.

  •  O movimento hippie, que se originou na Costa Oeste dos Estados Unidos na década de 1960 e depois se difundiu pelo mundo ocidental, surgiu da rejeição que muitos jovens da época manifestaram contra arquétipos sociais, papéis, padrões preestabelecidos de comportamento e estruturas sociais e econômicas baseadas no ego. Eles se recusavam a desempenhar os papéis que os pais e a sociedade queriam lhes impor. Esse movimento coincidiu com os horrores da Guerra do Vietnã. Durante esse conflito morreram mais de 57 mil jovens americanos e 3 milhões de vietnamitas. Por meio dele, a insanidade do sistema e do modelo mental dominante ficou explícita. Nos anos 1950, a maioria dos americanos ainda era extremamente conformista em sua forma de pensar e agir, mas, na década seguinte, milhões deles começaram a rejeitar sua identificação com uma identidade conceituai coletiva cuja loucura se tornara óbvia. O movimento hippie representou um afrouxamento das estruturas egóicas rígidas que até então predominavam na psique da humanidade. Embora tenha se deturpado e acabado, ele deixou uma abertura, e não só para seus seguidores. Seu surgimento permitiu que a antiga sabedoria e a espiritualidade oriental entrassem no Ocidente e cumprissem uma função essencial no despertar da consciência mundial.

Abandonando as definições pessoais

  • A medida que as culturas tribais evoluíram para as antigas civilizações, determinadas funções começaram a ser atribuídas às pessoas: governador, sacerdote, guerreiro, agricultor, mercador, artesão, operário, etc. Desenvolveu- se um sistema de classes. A função de cada um, que, na maioria das vezes, já estava decidida desde o nascimento, estabelecia quem a pessoa era aos olhos dos outros, assim como aos seus próprios olhos. A função tornou-se um papel, mas não era reconhecida como tal: ela era o próprio indivíduo ou o que este pensava que era. Naqueles tempos, apenas raros seres, como Buda e Jesus, viam a completa irrelevância das castas e das classes sociais e consideravam-nas identificações com a forma. Eles foram capazes de entender também que essa identificação com o que é temporal e condicionado obscurece a luz do que é eterno e não condicionado e que brilha em cada ser humano.

  •  No mundo contemporâneo, as estruturas sociais são menos rígidas, menos definidas, do que costumavam ser. Embora as pessoas, em sua maioria, ainda sejam condicionadas pelo ambiente, elas não são mais automaticamente investidas de uma função e de uma identidade. Na verdade, hoje em dia, é crescente o número de indivíduos que se sentem confusos quanto ao lugar ao qual se encaixam, ao seu propósito e até mesmo a quem eles são.

  •  Costumo parabenizar as pessoas quando elas me dizem: "Não sei mais quem eu sou." Então elas ficam perplexas e me perguntam se é bom estar confuso. Eu lhes peço que reflitam sobre isso. O que significa estar confuso? "Não sei" não é sinônimo de confusão. Confusão é: "Eu não sei, mas deveria saber" ou "Não sei, porém preciso saber". É possível abandonarmos a crença de que devemos ou precisamos saber quem somos? Em outras palavras, podemos parar de considerar definições conceituais que nos dêem uma percepção do eu? Você, por exemplo, é capaz de deixar de examinar o pensamento sobre uma identidade? Quando colocamos de lado a convicção de que necessitamos saber quem somos, o que acontece com a confusão? De repente ela acaba. No momento em que aceitamos de fato de que não temos esse conhecimento, entramos num estado de paz e clareza que está mais próximo de quem somos verdadeiramente do que o pensamento jamais poderá estar. Usar o pensamento para nos definir é algo que nos limita.

Vilão vitima amante

  • Quando não conseguem obter elogios nem admiração, alguns egos procuram outras formas de chamar a atenção ou interpretam papéis para consegui-la. Caso não obtenham atenção positiva, podem buscar atenção negativa - por exemplo, provocando uma reação desagradável em alguém. Há inclusive casos de crianças que fazem isso. Elas adotam um mau comportamento para se fazer notar. A interpretação de papéis negativos torna-se particularmente acentuada quando o ego é intensificado por um sofrimento emocional do passado que deseja se renovar com uma experiência diferente. Alguns egos cometem crimes na sua busca pela fama. Eles procuram atenção por meio da notoriedade e da condenação por parte das pessoas. "Por favor, me diga que eu existo, que não sou insignificante" parece ser sua mensagem. Essas formas patológicas do ego são apenas versões mais extremas dos egos normais. 

  •  Um papel muito comum é o de vítima, e a forma de atenção que o ego busca é a solidariedade, a piedade ou o interesse dos outros pelos "meus" problemas, por "mim e minha história". Ver-se como vítima é um componente de muitos padrões egóicos, como queixar-se, sentir-se ofendido, ultrajado, e assim por diante. É claro que, depois que uma pessoa se identifica com uma história em que assume o papel de vítima, ela não quer que isso termine, e assim, como muitos terapeutas sabem, o ego não deseja o fim dos seus "problemas" porque eles fazem parte da sua identidade. Se ninguém deseja escutar sua triste história, a pessoa pode contá-la mentalmente para si mesma quantas vezes tiver vontade e sentir pena de si própria. Dessa forma, sua identidade será a de alguém que não está sendo tratado com justiça pela vida, por outros indivíduos, pelo destino ou por Deus. Essa atitude define a imagem que ela faz de si mesma, torna-a alguém - e isso é tudo o que importa ao ego.

  •  No início de muitos relacionamentos chamados românticos, a interpretação de papéis é bastante comum no sentido de atrair e manter a pessoa que é percebida pelo ego como aquela que fará o indivíduo feliz, especial e satisfará todas as suas necessidades. "Eu interpreto quem você quer que eu seja, enquanto você representa quem eu desejo que você seja." Esse é um acordo implícito e inconsciente. No entanto, a interpretação de papéis é um trabalho árduo que as pessoas não conseguem sustentar por um tempo indefinido, sobretudo depois que começam a viver juntas. O que vemos quando esses papéis se acabam? Na maioria dos casos, ainda não a verdadeira essência do ser, mas aquilo que a encobre: o ego em estado natural, despido dos seus disfarces, com os sofrimentos que traz do passado e seu querer insatisfeito, que agora se transforma em raiva, provavelmente direcionada ao parceiro ou à parceira por ter deixado de remover o medo subjacente e o sentimento de insatisfação que é uma parte intrínseca da percepção egóica do eu. 

  •  Na maior parte das vezes, aquilo que costumamos chamar de "apaixonar-se" é uma intensificação do desejo e da necessidade do ego. Ficamos viciados na outra pessoa ou na sua imagem. Isso não tem nada a ver com o verdadeiro amor, que implica não querer nada. A língua espanhola é a mais honesta com relação às noções convencionais do amor: te quiero significa tanto "quero você" quanto "te amo". A expressão "te amo", que não tem essa ambigüidade, dificilmente é usada - talvez porque o verdadeiro amor seja de fato muito raro.

Interpretação de papéis: as muitas faces do ego

  • Um ego que quer alguma coisa do outro - e que ego não deseja isso - em geral representa um tipo de papel para satisfazer suas "necessidades", que podem ser: ganhos materiais; sensação de poder, de superioridade e de ser especial; além de um sentimento de gratificação, seja física ou psicológica. Em geral, as pessoas não têm nenhuma consciência dos papéis que representam. Elas são esses papéis. Alguns deles são sutis, enquanto outros são óbvios, exceto para quem os interpreta. Há aqueles criados com o único objetivo de atrair a atenção de alguém. O ego prospera quando angaria a atenção dos outros, porque ela é, acima de tudo, uma energia psíquica. Como não sabe que a origem de toda a energia está dentro da pessoa, ele a procura externamente. Porém, sua busca não é pela atenção sem forma - a presença -, e sim pela atenção numa forma, como reconhecimento, elogio e admiração. Certas vezes, só o fato de ser notado de alguma maneira já vale como um reconhecimento da sua existência. 

  •  Uma pessoa tímida que tem medo da atenção dos outros não está livre do ego - nesse caso, o ego é ambivalente, pois tanto quer quanto teme a atenção externa. O temor é de que a atenção possa tomar a forma de desaprovação ou crítica, isto é, algo que diminua a percepção do eu em vez de aumentá-la. Portanto, o medo que a pessoa tímida tem da atenção é maior do que a necessidade que tem dela. A timidez costuma ser acompanhada de uma auto-imagem predominantemente negativa, a crença de ser inadequado. Qualquer percepção conceituai do eu - ver a si mesmo como isso ou aquilo - é o ego, seja ela favorável (eu sou o maior) ou desfavorável (não sou bom). Por trás de toda auto-imagem positiva há o medo de não ser bom o bastante. Por trás de toda auto-imagem negativa está o desejo de ser o maior ou melhor do que os outros. Oculto pelo confiante e contínuo sentimento de superioridade do ego encontra-se o medo inconsciente de ser inferior. De modo inverso, o ego tímido, que se sente inapropriado e menor, tem um forte desejo camuflado de superioridade. Muitas pessoas flutuam entre sentimentos de inferioridade e superioridade, dependendo da situação e dos indivíduos com quem entram em contato. Tudo o que devemos saber e observar em nós mesmos é isto: sempre que nos sentirmos superiores ou inferiores a alguém, isso é o ego em ação.

Ego e fama

  • O fenômeno bem conhecido de "citar nomes", a menção casual de pessoas que conhecemos, faz parte da estratégia do ego para ganhar uma identidade superior aos olhos dos outros e, portanto, aos seus próprios olhos mediante a associação com alguém "importante". O mal de ser famoso é que a verdadeira identidade do indivíduo torna-se totalmente obscurecida por uma imagem mental coletiva. A maioria das pessoas que se aproxima de alguém célebre quer melhorar a própria identidade - a imagem mental de quem elas são - por meio dessa associação. Talvez elas até ignorem o fato de que não estão interessadas no indivíduo famoso, e sim apenas em fortalecer sua percepção ficcional do eu. Acreditam que, por meio dele, podem ser mais. Tentam se completar por intermédio dele ou da sua imagem mental como alguém de renome, uma identidade conceituai coletiva inquestionável. 

  •  A supervalorização absurda da fama é simplesmente uma das muitas manifestações da loucura egóica do nosso mundo. Algumas celebridades caem no mesmo erro e se identificam com a ficção coletiva, isto é, com a imagem que as pessoas e a mídia criaram delas, e começam a se considerar de fato superiores aos reles mortais. O resultado disso é que elas se tornam cada vez mais alienadas de si mesmas e dos outros, mais infelizes e mais dependentes da continuidade da sua popularidade. Cercadas apenas por pessoas que se aumentam da sua auto-imagem inflada, mostram-se incapazes de estabelecer relacionamentos verdadeiros.

  •  Albert Einstein, que foi admirado quase como sobre-humano e acabou se tornando uma das pessoas mais famosas do planeta, nunca se identificou com a imagem que a mente coletiva criou dele. Permaneceu humilde, sem ego. E chegou a dizer o seguinte: "...uma contradição grotesca entre o que as pessoas consideram ser minhas conquistas e habilidades e a realidade de quem eu sou e do que sou capaz."

  • É por esse motivo que um indivíduo famoso tem dificuldade para estabelecer um relacionamento verdadeiro com as pessoas. Uma relação autêntica é aquela que não é dominada pelo ego, que está sempre voltada para a construção da sua imagem e para a busca do eu. Num relacionamento genuíno, há um fluxo de atenção plena e receptiva que é dirigido à outra pessoa, e nele não cabe nenhum outro querer. Essa atenção plena é a presença - o pré-requisito para todo relacionamento autêntico. O ego age sempre da seguinte forma: ou quer alguma coisa ou, se acredita que não existe nada para obter do outro, assume um estado de profunda indiferença e não se preocupa com ele. Assim, os três estados predominantes dos relacionamentos egóicos são: o querer, o querer insatisfeito (raiva, ressentimento, acusação, queixa) e a indiferença.

A necessidade do ego de se sentir superior

  • Existem muitas formas sutis de ego que, mesmo sendo tênues, podemos observar com facilidade nas pessoas e, mais importante, em nós. Lembre-se: no momento em que nos tornamos conscientes do nosso ego, essa consciência emergente é quem somos além do ego, o "eu" profundo. O reconhecimento do falso já é o surgimento do real. 

  •  Por exemplo, imagine que você está prestes a contar uma novidade a alguém. "Já sabe o que aconteceu? Não? Vou lhe dizer." Se estiver alerta o suficiente, no pleno estado de presença, será capaz de detectar um rápido sentimento de satisfação dentro de si imediatamente antes de dar a notícia, até mesmo se ela for má. Isso ocorre porque, por um breve momento, existe, aos olhos do ego, um desequilíbrio a seu favor na relação entre você e a outra pessoa. Durante esse instante, você sabe mais do que ela. Essa satisfação provém do ego e ela surge porque sua percepção do eu é mais forte em comparação com a outra pessoa. Ainda que o interlocutor seja o presidente ou o papa, você se sente superior a ele naquele momento porque sabe mais. Esse é um dos motivos que fazem com que muita gente se vicie em fofoca. Além disso, a fofoca costuma carregar um elemento de crítica e julgamento malicioso dos outros. Dessa forma, também fortalece o ego por meio da superioridade moral imaginada, que fica implícita em toda apreciação negativa que fazemos de alguém. 

  •  Se uma pessoa tem mais, sabe mais ou pode fazer mais do que nós, o ego se sente ameaçado porque o sentimento de "menos" diminui sua percepção imaginada do eu em relação a ela. Assim, ele pode tentar se recuperar procurando, de algum modo, criticar, reduzir ou menosprezar o valor das capacidades, dos bens ou dos conhecimentos desse indivíduo. Ou pode mudar de estratégia: em vez de competir, vai se valorizar por meio da associação com essa pessoa, caso ela seja considerada importante aos olhos dos outros.

Todas as estruturas são instáveis

  • Seja qual for a forma que assuma, a motivação inconsciente por trás do ego é fortalecer a imagem de quem nós pensamos que somos, o eu-fantasma que passa a existir quando o pensamento - uma enorme bênção, assim como uma grande maldição - começa a dominar e a obscurecer a simples, e ainda assim profunda, alegria da conectividade com o Ser, a Origem, Deus. Independentemente do comportamento que o ego manifeste, a força motivadora oculta é sempre a mesma: a incessante necessidade de aparecer, ser especial, estar no controle, ter poder, ganhar atenção. E, é claro, a necessidade de experimentar uma sensação de isolamento, ou seja, de oposição, de ter inimigos.

  •  O ego sempre quer alguma coisa das pessoas ou das situações. No caso dele há sempre um plano oculto, um sentimento de "ainda não é o bastante", de insuficiência e falta, que precisa ser atendido. Ele usa as pessoas e situações para conseguir o que deseja e, até mesmo quando é bem-sucedido, nunca fica satisfeito por muito tempo. Em geral, vive frustrado com seus objetivos - na maior parte do tempo, a lacuna entre o "eu quero" e "o que acontece" torna- se uma fonte constante de aborrecimento e angústia. A clássica canção dos Rolling Stones (I Can’t Get No) Satisfaction ("Não consigo ter satisfação") é sua música. A emoção subjacente que governa todas as atividades do ego é o medo. O medo de não ser ninguém, o medo da não-existência, o medo da morte. Todas as suas ações, enfim, destinam-se a eliminar esse temor. No entanto, o máximo que o ego consegue fazer é encobri-lo temporariamente, seja com um relacionamento íntimo, a aquisição de um novo bem ou tendo um bom desempenho numa coisa ou noutra. A ilusão nunca nos satisfaz. Apenas a verdade de quem nós somos, se compreendida, nos libertará.

  •  Por que o medo? Porque o ego surge pela identificação com a forma e, na verdade, ele sabe que nenhuma forma é permanente, que todas elas são transitórias. Assim, há sempre um sentimento de insegurança ao seu redor, mesmo que externamente ele pareça confiante. 

  •  Certa vez, quando eu caminhava com um amigo numa linda reserva natural próxima a Malibu, na Califórnia, chegamos às ruínas do que fora uma casa de campo, destruída pelo fogo décadas atrás. Aos nos aproximarmos da propriedade, toda cercada de árvores e de plantas magníficas, vimos, ao lado da trilha, uma placa que as autoridades do parque haviam colocado ali. Nela estava escrito: "Perigo. Todas as estruturas são instáveis." Comentei com meu amigo: "Este é um sutra profundo." E ficamos parados, impressionados. Depois que compreendemos e aceitamos que todas as estruturas (formas) são efêmeras, até mesmo os materiais aparentemente sólidos, a paz surge dentro de nós. Isso acontece porque o reconhecimento da impermanencia de todas as formas nos desperta para a dimensão do que não tem forma no nosso interior, o que está além da morte. Jesus chamou isso de "vida eterna".

Além do ego: Nossa verdadeira identidade

  • Quando o ego está em guerra, saiba que isso não passa de uma ilusão que está lutando para sobreviver. Essa ilusão pensa ser nós. A princípio, não é fácil estarmos lá como testemunhas, no estado de presença, sobretudo quando o ego se encontra nessa situação ou quando um padrão emocional do passado é ativado. No entanto, depois que sentimos o gosto dessa experiência, nosso poder de atingir o estado de presença começa a crescer e o ego perde o domínio que tem sobre nós. E, assim, chega à nossa vida um poder que é muito maior do que o ego, maior do que a mente. Tudo de que precisamos para nos livrar do ego é estarmos conscientes dele, uma vez que ele e a consciência são incompatíveis. A consciência é o poder oculto dentro do momento presente. É por isso que podemos chamá-la de presença. O propósito supremo da existência humana, isto é, de cada um de nós, é trazer esse poder ao mundo. E é também por isso que nossa libertação do ego não pode ser transformada numa meta a ser atingida em algum ponto no futuro. Somente a presença é capaz de nos libertar dele, pois só podemos estar presentes agora - e não ontem nem amanhã. Apenas ela consegue desfazer o passado em nós e assim transformar nosso estado de consciência. 

  •  O que é a compreensão da espiritualidade? A crença de que somos espíritos? Não, isso é um pensamento. De fato, ele está um pouco mais próximo da verdade do que a idéia de que somos a pessoa descrita na nossa certidão de nascimento, mas, ainda assim, é um pensamento. A compreensão da espiritualidade é ver com clareza que o que nós percebemos, vivenciamos, pensamos ou sentimos não é, em última análise, quem somos, que não podemos nos encontrar em todas essas coisas, que são transitórias e se acabam continuamente. E provável que Buda tenha sido o primeiro ser humano a entender isso, e dessa maneira anata (a noção do não-eu) se tornou um dos pontos centrais dos seus ensinamentos. E, quando Jesus disse "Negue-se a si mesmo", sua intenção era afirmar: negue (e assim desfaça) a ilusão do eu. Se o eu - o ego - fosse de fato quem somos, seria um absurdo "negá-lo".

  •  O que permanece é a luz da consciência, sob a qual percepções, sensações, pensamentos e sentimentos vêm e vão. Isso é o Ser, o mais profundo e verdadeiro eu. Quando sabemos que somos isso, qualquer coisa que ocorra na nossa vida deixa de ter importância absoluta para adquirir importância apenas relativa. Respeitamos os acontecimentos, mas eles perdem sua seriedade plena, seu peso. A única coisa que faz diferença realmente é isto: podemos sentir nosso Ser essencial, o "eu sou", como o pano de fundo da nossa vida o tempo todo? Para ser mais exato, conseguimos sentir o "eu sou" que somos neste momento? Somos capazes de sentir nossa identidade essencial como consciência propriamente dita? Ou estamos nos perdendo no que acontece, na mente, no mundo?

Queremos paz ou conflito?

  • Desejamos paz. Não existe ninguém que não a queira. Ainda assim, há algo em nós que pede o conflito, o enfrentamento. Talvez você não seja capaz de perceber isso neste instante. Pode ser que tenha que esperar por uma situação ou até mesmo por um pensamento que disparem uma reação de sua parte: alguém que o acuse de algo, que não o reconheça, que se intrometa no seu território, que questione sua maneira de fazer as coisas, que provoque uma discussão sobre dinheiro, etc. Diante de uma circunstância desse tipo, você consegue sentir o imenso impulso de força que começa a atravessá-lo, o medo, que talvez esteja sendo mascarado por raiva ou hostilidade? É capaz de ouvir sua própria voz se tornando áspera, estridente? Tem consciência de que sua mente está correndo para defender a posição dela, justificar, atacar, condenar? Em outras palavras, tem capacidade de despertar nesse momento de inconsciência? Sente que algo em você está em guerra, alguma coisa que se vê ameaçada e quer sobreviver a todo custo, que precisa do confronto para afirmar a própria identidade como o personagem vitorioso dentro dessa produção teatral? Consegue sentir que existe algo em você que preferiria estar certo a estar em paz?

A guerra é um modelo mental

  • Em determinados casos, precisamos nos proteger ou defender uma pessoa dos atos prejudiciais de alguém. No entanto, temos que ter cuidado para não transformar isso numa missão de "erradicação do mal", uma vez que, provavelmente, nos converteremos na própria coisa que estamos combatendo. Lutar de modo inconsciente pode nos levar à inconsciência. Há a possibilidade de que a inconsciência - o comportamento egóico desajustado - nunca seja vencida pelo ataque. Mesmo se derrotarmos o oponente, ela simplesmente se transferirá para nós ou esse adversário reaparecerá num novo disfarce. Nós fortalecemos tudo aquilo que combatemos, enquanto todas as coisas a que resistimos persistem. 

  • Hoje em dia ouvimos com freqüência a expressão "a guerra contra" isso ou aquilo. Onde quer que eu a ouça, sei que está condenada ao fracasso. Há a guerra contra as drogas, a guerra contra o crime, a guerra contra o terrorismo, a guerra contra o câncer, a guerra contra a pobreza, e assim por diante. Por exemplo, apesar da luta contra o crime e as drogas, tem havido um aumento impressionante no número de crimes e de delitos relacionados às drogas nos últimos 25 anos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a população carcerária passou de 300 mil detentos em 1980 para 2,1 milhões em 2004.4 A guerra contra as doenças nos deu, entre outras coisas, os antibióticos. A princípio, muitos especialistas concordam que o uso disseminado e indiscriminado desses remédios criou uma bomba-relógio e que as espécies de bactérias resistentes a eles provavelmente causarão um ressurgimento dessas moléstias, talvez até como epidemias. O Journal of the American Medicai Association diz que nos Estados Unidos o tratamento médico é a terceira maior causa de morte depois dos males cardíacos e do câncer. A homeopatia e a medicina chinesa são dois exemplos de métodos de tratamento alternativos que não consideram as doenças inimigos e, portanto, não criam novas enfermidades. 

  •  A guerra é um modelo mental, e toda ação que resulta dela tanto pode fortalecer o inimigo (o mal percebido) ou, quando ela é vencida, criar um novo adversário, um mal que pode ser idêntico ao que foi derrotado ou até pior do que ele. Existe uma profunda inter-relação entre nosso estado de consciência e a realidade externa. Quando nos encontramos sob o domínio de um modelo mental como o da "guerra", nossas percepções se tornam extremamente seletivas e distorcidas. Em outras palavras, só vemos aquilo que queremos ver e, assim, interpretamos tudo errado. É fácil imaginar que tipo de ação decorre dessa espécie de engano. Se você não quiser imaginá-la, observe as notícias na televisão hoje à noite.

  •  Reconheça o ego pelo que ele é: um distúrbio coletivo, a insanidade da mente humana. Quando o identificamos pelo que ele é, deixamos de interpretá-lo erroneamente como a identidade de uma pessoa. E temos mais facilidade em não adotar uma atitude reativa em relação a ele. Já não o tomamos como algo pessoal. Não existe queixa, culpa, acusação nem ação equivocada. Ninguém está errado. É apenas o ego em alguém, só isso. A compaixão surge quando compreendemos que todas as pessoas sofrem do mesmo distúrbio mental, algumas delas de forma mais aguda do que outras. Assim, paramos de nutrir o conflito que faz parte de todos os relacionamentos egóicos. E o que o alimenta? A atitude reativa: com ela, o ego prospera.

O ego não é pessoal

  • Num nível coletivo, o modelo mental "Estamos certos e eles estão errados" está particularmente entrincheirado naqueles lugares do mundo onde o conflito entre dois lados - que podem ser países, raças, tribos, religiões ou ideologias - é muito antigo, extremo e endêmico. Ambos estão igualmente identificados com sua própria perspectiva, sua própria "história", isto é, com o pensamento. Os dois são incapazes de perceber que outra perspectiva, outra história, possa existir e também ser válida. O escritor israelense Y. Halevi fala da possibilidade de "conciliar uma narrativa competitiva".3 No entanto, em muitos pontos do globo, as pessoas ainda não são capazes de fazer isso ou não querem agir assim. As duas partes julgam-se detentoras da verdade. Cada uma delas se considera vítima e classifica o "outro" como o mal. Como o conceitualizam e o desumanizam, vendo-o como inimigo, são capazes de matá-lo e infligir-lhe todo tipo de violência, ainda que se trate de crianças, sem sentir sua humanidade e seu sofrimento. Ficam aprisionados numa espiral insana de cometer atos terríveis e sofrer o revide - ação e reação. 

  •  Portanto, torna-se óbvio que o ego humano em seu aspecto coletivo como "nós" contra "eles" é até mesmo mais doentio do que o "eu", o ego individual, embora o mecanismo de ambos seja idêntico. A maior parte da violência que os seres humanos infligiram a si mesmos não foi obra de criminosos nem de indivíduos mentalmente perturbados, mas de cidadãos normais, respeitáveis, a serviço do ego coletivo. Alguém poderia até dizer que, neste planeta, "normal" equivale a louco. O que se encontra na raiz dessa insanidade? A completa identificação com o pensamento e a emoção, isto é, o ego.

  •  A cobiça, o egoísmo, a exploração, a crueldade e a violência ainda são dominantes em todas as partes do mundo. Quando não reconhecemos esses elementos como manifestações individuais e coletivas de um distúrbio básico ou de uma doença mental, caímos no erro de personalizá-los. Construímos uma identidade conceituai para um indivíduo ou grupo e dizemos: "É isto que ele é. É isto que eles são." Sempre que confundimos o ego que detectamos em alguém com sua identidade, isso é obra do nosso próprio ego, que usa essa interpretação errônea para se fortalecer mostrando que está certo e que, portanto, é superior. Ele também faz isso reagindo com condenação, indignação e, geralmente, raiva em relação ao inimigo percebido. Tudo isso lhe proporciona imensa satisfação. Fortalece a sensação de separação entre nós e o outro, cuja "alteridade", isto é, a natureza ou condição do que é outro, do que é distinto, aumenta a tal ponto que já não conseguimos sentir sua humanidade nem suas raízes na Vida Única que compartilhamos com cada ser humano, a divindade que temos em comum. 

  •  Os padrões egóicos específicos a que reagimos com mais intensidade em alguém e que classificamos erroneamente como sua identidade tendem a ser idênticos aos nossos - no entanto, ou somos incapazes de vê-los ou não queremos detectá-los em nós. Nesse sentido, temos muito a aprender com nossos inimigos. O que existe neles que mais nos incomoda ou perturba? O egoísmo? A cobiça? A necessidade de poder e controle? A falta de sinceridade, a desonestidade, a propensão à violência, o quê? Qualquer coisa da qual nos ressentimos no outro e à qual reagimos com intensidade também existe em nós. Mas não é mais do que uma forma do ego e, como tal, é impessoal. Ela não tem nada a ver com quem a pessoa é nem com quem nós somos. Somente se a confundirmos com nossa identidade ela pode representar uma ameaça à nossa percepção do eu.

Verdade: Relativa ou absoluta?

  • Fora do terreno dos fatos simples e verificáveis, a certeza "Estou certo e você errado" é perigosa para os relacionamentos pessoais, bem como para as interações entre países, tribos, religiões, e assim por diante. 

  •  No entanto, se o fato de sustentarmos que estamos certos e os outros errados é uma das maneiras que o ego tem de se sentir fortalecido, se é um distúrbio mental que perpetua a separação e o conflito entre os seres humanos, isso significa que não existem comportamentos, atos nem credos certos ou errados? E não seria isso o relativismo (a crença de que não existe uma verdade absoluta para guiar o comportamento humano) que alguns ensinamentos cristãos contemporâneos consideram o grande mal da nossa época? 

  •  A história do cristianismo é um exemplo básico de como a crença de que estamos na isolada posição de detentores da verdade, ou seja, certos, pode corromper nossas ações e nossos comportamentos ao ponto da insanidade. Durante séculos, torturar e queimar pessoas vivas, caso sua opinião divergisse até mesmo da forma mais superficial da doutrina da Igreja ou de interpretações estreitas das Escrituras (a "verdade"), eram consideradas atitudes corretas porque as vítimas estavam "erradas". Elas estavam tão equivocadas que precisavam ser mortas. A verdade tinha mais importância do que a vida humana. E o que era a verdade? Uma história em que todos tinham de acreditar, ou seja, um punhado de pensamentos. 

  •  No grupo de um milhão de pessoas que Pol Pot, o ex-ditador do Camboja, mandou matar encontravam-se todos os que usavam óculos. Por quê? Porque, para ele, a interpretação marxista da história era a verdade absoluta, e, de acordo com sua versão da verdade, aqueles que usavam óculos pertenciam à classe instruída - eram os burgueses, os exploradores dos camponeses. Eles precisavam ser eliminados para dar espaço a uma nova ordem social. A verdade dele era também um punhado de pensamentos. 

  •  A Igreja Católica e outras religiões estão certas quando apontam o relativismo como um dos demônios do nosso tempo. No entanto, não encontraremos a verdade absoluta se a procurarmos onde ela não está: em doutrinas, ideologias, conjuntos de leis ou histórias. O que todas essas coisas têm em comum? Elas se constituem de pensamentos. Na melhor das hipóteses, o pensamento indica a verdade, contudo nunca / a verdade. É por isso que os budistas dizem que "o dedo apontando para a Lua não é a Lua". Todas as religiões podem ser falsas e verdadeiras, dependendo de como as usamos. Cabe a nós colocá-las a serviço do ego ou da verdade. Se acreditamos que apenas nossa religião é a verdade, nós a estamos utilizando em prol do ego. Empregado dessa maneira, o credo torna-se uma ideologia e cria uma sensação ilusória de superioridade assim como de divisão e conflito entre as pessoas. Quando trabalham para a verdade, os ensinamentos religiosos representam pontos de sinalização ou mapas que pessoas conscientes deixam no caminho para nos ajudar a despertar espiritualmente, isto é, a nos tornarmos livres da identificação com a forma.

  •  Existe apenas uma verdade absoluta, e todas as outras verdades emanam dela. Quando a encontramos, nossas ações acontecem em sintonia com ela. A ação humana pode refletir a verdade ou a ilusão. Será que é possível colocar a verdade em palavras? Sim, porém as palavras não são a verdade. Elas apenas a indicam.

  •  A verdade é inseparável de quem nós somos. Sim, você / a verdade. Sempre que a procurar em outro lugar, acabará decepcionado. O próprio Ser que é você é a verdade. Jesus tentou mostrar isso quando disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida."2 Essas palavras são um dos mais poderosos e diretos indicadores da verdade desde que entendidas corretamente. Se mal interpretadas, tornam-se um grande obstáculo. Jesus fala do Ser mais interior, da essência da identidade de cada homem ou mulher -na verdade, de toda forma de vida. Ele se refere à vida que nós somos. Alguns místicos cristãos chamam isso de "o Cristo interior"; os budistas o denominam "natureza de Buda"; para os hinduístas, é o atmã, a essência divina. Quando entramos em contato com essa dimensão que trazemos dentro de nós - e isso é nosso estado natural, e não uma conquista milagrosa -, todas as ações que praticamos e os relacionamentos que estabelecemos refletem o estado de unificação com a Vida Única que sentimos em nosso interior. Isso é amor. Leis, mandamentos, normas e regulamentos são necessários para aqueles que estão separados de quem eles são, da sua verdade interna. Essas regras destinam-se a evitar os piores excessos do ego, porém, em geral, não são capazes sequer de fazer isso. "Ame e faça o que quiser", disse Santo Agostinho. As palavras não conseguem chegar mais perto da verdade do que isso.

Em defesa de uma ilusão

  • Vamos considerar os fatos, que são inquestionáveis. Por exemplo, se você disser "A luz se desloca mais rápido do que o som" e alguém afirmar o contrário, é óbvio que você está certo e a pessoa, errada. A simples observação de que o raio precede o trovão confirma isso. Portanto, você não apenas está certo como sabe que tem razão. Será que o ego está envolvido nisso? Talvez, mas não necessariamente. Se você está apenas afirmando algo que sabe estar correto, não há participação do ego, porque não há identificação. Identificação com o quê? Com a mente e com uma posição mental. Porém, essa identificação pode se insinuar com a maior facilidade. Se você se surpreender dizendo "Acredite em mim, eu sei" ou "Por que você nunca acredita em mim?", é porque o ego já se pronunciou. Ele se esconde na palavra "mim". Uma simples afirmação - "A luz é mais rápida do que o som" - , embora verdadeira, agora está a serviço da ilusão, do ego. Ela foi contaminada com um falso sentimento de "eu", tornou-se personalizada, convertida numa posição mental. O "eu" sente-se inferiorizado ou ofendido porque alguém não acredita no que ele disse.

  •  O ego leva tudo para o lado pessoal. Surge a emoção, assim como a atitude defensiva, talvez até a agressão. Estamos defendendo a verdade? Não, a verdade nunca precisa de defesa. Nem a luz nem o som se importam com o que eu, você ou qualquer outra pessoa pense. Estamos protegendo a nós mesmos ou então a ilusão de nós mesmos, o substituto produzido pela mente. Seria ainda mais apropriado dizer que a ilusão está resguardando a si mesma. Se até o terreno simples e direto dos fatos está sujeito à distorção e à ilusão egóica, o que dizer do menos tangível campo das opiniões, pontos de vista e julgamentos, todos eles formas de pensamento que podem facilmente adquirir um sentimento de "eu". 

  •  Todo ego confunde opiniões e pontos de vista com fatos. Além disso, nenhum ego consegue estabelecer a diferença entre um acontecimento e sua reação a ele. O ego é sempre um mestre da percepção seletiva e da interpretação distorcida. Apenas por meio da consciência - e não do pensamento - somos capazes de diferenciar entre fato e opinião. Somente por intermédio da consciência uma pessoa consegue ver o seguinte: esta é a situação e aqui está a raiva que sinto dela. Depois, compreende que existem outras formas de abordar aquela circunstância e maneiras diferentes de entendê-la e de lidar com ela. Só com o uso da consciência conseguimos ver a totalidade da situação ou da pessoa em vez de adotarmos um ponto de vista limitado.

Estar certo e tornar o outro errado

  • Queixar-se, assim como encontrar erros nos outros ou assumir uma atitude reativa, fortalece o sentido de limite e de separação característico do ego e do qual ele depende para sobreviver. Mas todas essas ações também o reforçam de outra maneira, dando-lhe uma sensação de superioridade que o faz se expandir. Talvez não fique claro de imediato de que modo as queixas - por exemplo, sobre trânsito, políticos, cobiça, incompetência, colegas de trabalho ou ex-cônjuge - podem nos proporcionar esse sentimento de superioridade. E há uma explicação para isso. Quando nos queixamos, subentende-se que estamos certos, enquanto a pessoa ou situação da qual reclamamos ou à qual reagimos está errada.

  •  Nada fortalece mais o ego do que estar certo. Isso o identifica com uma posição mental - uma perspectiva, uma opinião, um julgamento, uma história. Obviamente, para termos razão, é necessário que alguém esteja errado. Assim, o ego adora apontar a falha para que possa mostrar que está certo. Em outras palavras: precisamos fazer com que os outros estejam equivocados para nos sentir mais fortes do que somos. Assim como uma pessoa, também uma situação pode ser considerada errada por meio de queixas e de algum tipo de reação, atitudes que sempre deixam subentendida a idéia "isso não deveria estar acontecendo". Estarmos certos nos coloca numa posição de superioridade moral imaginada em relação à pessoa ou à situação que está sendo julgada. E esse sentimento de superioridade que o ego adora e por meio do qual se destaca.

A atitude reativa e o rancor

  • Embora o ressentimento costume ser a emoção que acompanha a queixa, ele também pode vir junto com uma emoção forte, como a raiva ou outra forma de contrariedade. Dessa maneira, torna-se mais carregado energeticamente. A reclamação então se transforma numa atitude reativa, outra maneira que o ego encontra de se fortalecer. Existem muitas pessoas que estão sempre esperando pela próxima coisa contra a qual reagir para que possam se sentir irritadas ou perturbadas - e nunca demora muito até que encontrem o que procuram. "Isso é um insulto", "Como você ousa...", "Estou profundamente magoado com isso" - é o que costumam dizer. Elas são viciadas em se aborrecer e se encolerizar, enquanto os outros funcionam como uma droga. Pela reação a isso ou àquilo, afirmam e intensificam sua percepção do eu. 

  •  Um ressentimento antigo é chamado de rancor. Carregar um sentimento desse tipo é estar permanentemente no estado "contra", e é por isso que o rancor constitui uma parte significativa do ego de muita gente. Quando coletivo, ele pode sobreviver por séculos na psique de um país ou de uma tribo e alimentar um ciclo interminável de violência. 

  •  Um rancor é uma forte emoção negativa ligada a um acontecimento ocorrido no passado, algumas vezes distante, que é mantido vivo pelo pensamento compulsivo que reconta a história, na cabeça ou em voz alta, "do que alguém me fez" ou "do que alguém nos fez". Esse sentimento também é capaz de contaminar outras áreas da vida. Por exemplo, enquanto pensamos sobre o rancor e o sentimos, sua energia emocional nefasta pode distorcer nossa percepção de um acontecimento que está ocorrendo naquele momento ou influenciar a maneira como falamos com alguém no presente ou nosso comportamento em relação a essa pessoa. Um rancor profundo é suficiente para afetar vários aspectos da vida e nos manter nas garras do ego. 

  •  E preciso honestidade para verificarmos se ainda guardamos rancores, se existe alguém na nossa vida que não conseguimos perdoar completamente, um "inimigo". Caso você esteja nessa situação, tome consciência do rancor tanto no nível do pensamento quanto no nível emocional, ou seja, conscientize-se dos pensamentos que mantêm a continuidade desse sentimento negativo e sinta a emoção, que é a reação do corpo a esses pensamentos. Não tente deixar o rancor de lado. Tentar perdoar não dá certo. O perdão acontece de modo natural quando entendemos que o rancor não tem outro propósito a não ser fortalecer uma falsa percepção do eu, ou seja, possibilitar a existência do ego. Compreender é libertar-se. O ensinamento de Jesus sobre "perdoar os inimigos" trata, em essência, de desfazer uma das principais estruturas egóicas da mente humana.

  •  O passado não tem força para nos impedir de viver no estado de presença agora. Apenas o rancor em relação ao passado pode fazer isso. E o que é o rancor? A bagagem de velhos pensamentos e antigas emoções.

Queixas e ressentimentos

  • Queixar-se é uma das estratégias prediletas do ego para se fortalecer. Cada reclamação é uma pequena história que a mente cria e na qual acreditamos inteiramente. Não importa se ela é feita em voz alta ou apenas em pensamento. Alguns egos que talvez não tenham muito mais com o que se identificar sobrevivem apenas com queixas. Quando estamos presos a um ego assim, reclamar, sobretudo de alguém, é algo habitual e, é claro, inconsciente, o que mostra que não sabemos o que estamos fazendo. Uma atitude típica desse padrão é aplicar rótulos mentais negativos às pessoas, seja na frente delas ou, como é mais comum, falando sobre elas com alguém ou até mesmo apenas pensando nelas. Xingar é o modo mais rude de atribuir esses rótulos e de mostrar a necessidade que o ego tem de estar certo e triunfar sobre os outros: "idiota", "desgraçado", "prostituta", todas essas afirmações definitivas contra as quais não se pode argumentar. No nível seguinte, descendo pela escala da inconsciência, estão os gritos. Não muito abaixo disso se encontra a violência física.

  •  O ressentimento é a emoção que acompanha a queixa e a rotulagem mental dos outros. Ele acrescenta ainda mais energia ao ego. Ressentir-se significa ficar magoado, melindrado ou ofendido. Costumamos nos sentir assim em relação à cobiça das pessoas, à sua desonestidade, à sua falta de integridade, ao que estão fazendo no presente, ao que fizeram no passado, ao que disseram, ao que deixaram de dizer, à atitude que deviam ou não ter tomado. O ego adora isso. Em vez de detectarmos a inconsciência nos outros, nós a transformamos em sua identidade. Quem é o responsável por isso? Nossa própria inconsciência, o ego. Algumas vezes, a "falta" que apontamos em alguém nem mesmo existe. Ela pode ser um erro total de interpretação, uma projeção feita por uma mente condicionada a ver inimigos e a se considerar sempre certa ou superior. Em outras ocasiões, a falta pode ter ocorrido; contudo, se nos concentrarmos nela, às vezes excluindo todo o resto, nós a tornamos maior do que é. E dessa maneira fortalecemos em nós mesmos aquilo a que reagimos no outro.

  •  Não reagir ao ego das pessoas é uma das maneiras mais eficazes de não só superarmos nosso próprio ego como também de dissolver o ego humano coletivo. No entanto, só conseguimos nos abster de reagir quando somos capazes de reconhecer o comportamento de alguém como originário do ego, como uma expressão do distúrbio coletivo da espécie humana. Quando compreendemos que não se trata de nada pessoal, a compulsão para reagir desaparece. Não reagindo ao ego, muitas vezes podemos fazer aflorar a sanidade nos outros, que é a consciência não condicionada em oposição à consciência condicionada. Em determinadas ocasiões, talvez precisemos tomar providências práticas para nos proteger de pessoas profundamente inconscientes. Isso é algo que temos condições de fazer sem torná-las nossas inimigas. Nossa maior defesa, contudo, é sermos conscientes. Alguém passa a ser um inimigo quando personalizamos a inconsciência que é o ego. A não- reação não é fraqueza, mas força. Outra palavra para não-reação é perdão. Perdoar é ver além, ou melhor, é enxergar através de algo. E ver, através do ego, a sanidade que há em cada ser humano como sua essência.

  •  O ego adora reclamar e se ressente não só de pessoas como de situações. O que podemos fazer com alguém também conseguimos fazer com uma circunstância: transformá-la num inimigo. Os pontos implícitos são sempre: isso não deveria estar acontecendo, não quero estar aqui, estou agindo contra minha vontade, o tratamento que estou recebendo é injusto. E, é claro, o maior inimigo do ego acima de tudo isso é o momento presente, ou seja, a vida em si. 

  •  Não confunda a queixa com a atitude de informar alguém de uma falha ou de uma deficiência para que elas possam ser sanadas. Além disso, abster-se de reclamar não corresponde necessariamente a tolerar algo de má qualidade nem um mau comportamento. Não há interferência do ego quando dizemos ao garçom que a comida está fria e precisa ser aquecida - desde que nos atenhamos aos fatos, que são sempre neutros. "Como você se atreve a me servir uma sopa fria?" Isso é se queixar. Nessa situação, existe um "eu" que adora se sentir pessoalmente ofendido pela comida fria e ele aproveitará esse fato ao máximo, um "eu" que aprecia apontar o erro de alguém. A reclamação a que me refiro está a serviço do ego, e não da mudança. Algumas vezes fica óbvio que o ego não deseja que algo se modifique para que possa continuar se queixando.

  •  Veja se você consegue capturar, ou melhor, perceber, a voz na sua cabeça - talvez no exato instante em que ela esteja reclamando de algo - e reconhecê-la pelo que ela é: a voz do ego, não mais do que um padrão mental condicionado, um pensamento. Sempre que a observar, compreenderá que você não é ela, e sim aquele que tem consciência dela. Na verdade, você é a consciência que está consciente da voz. Atrás, em segundo plano, está a consciência. À frente, se situa a voz, aquele que pensa. Dessa maneira você estará se libertando do ego, livrando-se da mente não observada. No momento em que você se tornar consciente do ego, a rigor ele não será mais o ego, e sim um velho padrão mental condicionado. O ego implica inconsciência. Ele e a consciência não conseguem coexistir. O velho padrão mental, ou hábito mental, pode sobreviver e se manifestar por um tempo porque tem o impulso de milhares de anos de inconsciência humana coletiva atrás de si. No entanto, toda vez que é reconhecido, ele se enfraquece.

A Essência do Ego

  • A maioria das pessoas está tão identificada com a voz dentro da própria cabeça - o fluxo incessante de pensamento involuntário e compulsivo e as emoções que os acompanham - que podemos dizer que esses indivíduos estão possuídos pela mente. Quem se encontra inconsciente disso acredita que aquele que pensa é quem ele é. Essa é a mente egóica. Chamo-a de egóica porque existe uma percepção do eu, do ego, em todos os pensamentos - lembranças, interpretações, opiniões, pontos de vista, reações, emoções. Isso é inconsciência, espiritualmente falando. O pensamento, o conteúdo da mente, é condicionado pelo passado: pela formação, pela cultura, pelos antecedentes familiares, etc. O núcleo central de toda a atividade mental consiste em determinados pensamentos, emoções e padrões reativos repetitivos e persistentes com os quais nos identificamos com mais intensidade. Essa entidade é o próprio ego. 

  •  Na maioria dos casos, quando dizemos "eu", é o ego que está falando, e não nós, como temos observado. O ego compõe-se de pensamentos e emoções, de uma série de lembranças que reconhecemos como "eu e minha história", de papéis habituais que desempenhamos sem saber e de identificações coletivas, como nacionalidade, religião, raça, classe social e orientação política. Ele contém ainda identificações pessoais não só com bens, mas com opiniões, aparência exterior, ressentimentos antigos e conceitos sobre nós mesmos como melhores do que os outros ou inferiores a eles, como pessoas bem-sucedidas ou fracassadas.

  •  O conteúdo do ego varia de pessoa para pessoa, no entanto todo ego funciona de acordo com a mesma estrutura. Em outras palavras: os egos diferem apenas na superfície. No fundo, eles são iguais. De que maneira são semelhantes? Eles existem à custa da identificação e da separação. Quando vivemos por meio do eu construído pela mente, que se constitui dos pensamentos e das emoções do ego, a base da nossa identidade é precária porque os pensamentos e as emoções são, por sua própria natureza, efêmeros, instáveis. Assim, todo ego está continuamente lutando pela sobrevivência, tentando se proteger e aumentar de tamanho. Para sustentar o pensamento do eu, ele precisa de algo oposto, que é o pensamento "o outro". O "eu" conceituai não consegue sobreviver sem o "outro" conceituai. Os outros são sobretudo os outros quando os vemos como inimigos. Numa extremidade da escala desse padrão egóico de consciência, situa-se o hábito compulsivo de encontrarmos defeitos nas pessoas e nos queixarmos delas. Jesus referiu-se a isso quando disse: "Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão e não reparas na trave que está no teu olho?"1 No outro extremo da escala, encontram-se a violência física entre indivíduos e as guerras entre países. Embora, na Bíblia, a pergunta de Jesus permaneça sem resposta, ela é, sem dúvida: porque quando critico ou condeno o outro sinto-me maior, superior.

A paz que excede toda a inteligência

  • Existem muitos relatos de pessoas que vivenciaram essa nova dimensão emergente da consciência como resultado de uma perda trágica em determinado momento da vida. Há quem tenha perdido todos os bens, os filhos ou o cônjuge, a posição social, a reputação ou as capacidades físicas. Em certos casos, em decorrência de desastre ou guerra, tudo isso se foi ao mesmo tempo e esses indivíduos se viram com "nada". Podemos chamar um quadro como esse de situação-limite. Não importa com que elementos essas pessoas estavam identificadas, o que lhes dava a percepção do ser, isso se acabou. Então, de repente e inexplicavelmente, a angústia e o medo intenso que elas sentiam desapareceram, dando lugar à sensação sagrada da presença, uma paz e uma serenidade profundas e uma completa libertação do medo. Esse fenômeno deve ter sido familiar a São Paulo, que usou a expressão "a paz de Deus que excede toda a inteligência".3 Na verdade, é uma paz que não parece fazer sentido, e quem já passou por essa experiência se pergunta: diante disso, como é possível que eu sinta tanta paz?

  •  Depois que compreendemos o que é o ego e como ele funciona, a resposta é simples. Quando as formas com as quais nos identificamos, que nos dão a percepção do eu, desmoronam ou são removidas, o ego entra em colapso, uma vez que ele / a identificação com a forma. No momento em que não há mais nada com que possamos nos identificar, quem somos nós? Assim que as formas ao nosso redor morrem ou quando a morte se aproxima, nossa percepção da Existência, do "eu sou", fica livre das ligações com a forma: o espírito é liberado da sua prisão na matéria. Passamos a compreender nossa identidade essencial como informe, como uma presença onipresente do Ser antes de todas as formas, de todas as identificações. Entendemos nossa verdadeira identidade como a consciência propriamente dita em vez de algo ao qual a consciência se vinculara. Essa é a paz de Deus. A verdade suprema de quem nós somos não é "eu sou isso ou eu sou aquilo", mas "eu sou". 

  • Nem todo mundo que vivência uma grande perda passa por esse despertar, isto é, pelo processo de se desassociar da forma. Algumas pessoas criam de imediato uma forte imagem mental ou uma forma de pensamento em que se vêem como vítimas -das circunstâncias, de alguém, de um destino injusto ou de Deus. Assim, vinculam-se com intensidade a essa forma de pensamento e às emoções que ela origina, como raiva, ressentimento e auto- piedade, que assumem de modo instantâneo o lugar de todas as outras identificações que entraram em colapso por causa da perda. Em outras palavras, o ego logo encontra uma nova forma. E o fato de que ela seja algo profundamente infeliz não o preocupa muito, desde que ele tenha uma nova identidade, boa ou má. Na verdade, esse novo ego será mais retraído, mais rígido e impenetrável do que o antigo. 

  •  Quando a perda trágica ocorre, nós ou resistimos a ela ou nos resignamos. Há pessoas que se tornam amargas ou muito ressentidas, enquanto outras se mostram mais solidárias, sábias e afetuosas. A resignação significa a aceitação interior do que aconteceu. Ficamos abertos à vida. A resistência é uma contração interior, um endurecimento da concha do ego. Permanecemos fechados. Seja qual for a ação que adotemos num estado de resistência interior (que podemos também chamar de negativismo), ela criará mais resistência externa, e o universo não estará do nosso lado, a vida não nos beneficiará. Se as persianas estiverem fechadas, o sol não conseguirá entrar. Quando nos submetemos internamente, ou seja, no momento em que nos entregamos, uma nova dimensão da consciência se abre. Caso uma ação seja possível ou necessária, essa atitude será alinhada com o todo e apoiada pela inteligência criativa, a consciência incondicional com a qual nos unificamos num estado de receptividade interior. As circunstâncias e as pessoas então se tornam favoráveis, cooperativas. Coincidências acontecem. Se nenhuma ação for possível, repousaremos na paz e no silêncio interior que acompanham a resignação. Descansaremos em Deus.

Do erro de Descartes ao insight de Sartre

  • O filósofo do século XVII René Descartes, considerado o fundador da filosofia moderna, deu expressão a esse erro fundamental com sua máxima (que considerou a verdade básica): "Penso, logo existo." Essa foi a resposta que ele encontrou para a pergunta: "Há alguma coisa que eu possa saber com certeza absoluta?" Descartes compreendeu que o fato de estar sempre pensando estava além da dúvida, assim igualou o pensamento ao Ser, isto é: a identidade - o "eu sou" - ao pensamento. Em vez da verdade suprema, ele havia detectado a origem do ego, mas não sabia disso.

  •  Passaram-se quase 300 anos antes que outro renomado filósofo francês visse algo naquela afirmação que Descartes, assim como todo mundo, não havia percebido. Seu nome era Jean-Paul Sartre. Ele refletiu muito sobre a afirmação de Descartes "Penso, logo existo" e, de repente, compreendeu algo. Em suas próprias palavras: "A consciência que afirma 'eu sou' não é a consciência que pensa." O que ele quis dizer com isso? Quando estamos conscientes de que estamos pensando, essa consciência não faz parte do pensamento. É uma dimensão diferente da consciência. E é essa consciência que diz "eu sou". Se não houvesse nada além do pensamento em nós, nem sequer saberíamos que pensamos. Seríamos como alguém que está sonhando e não sabe que está fazendo isso. Estaríamos identificados com cada pensamento assim como aquele que sonha está vinculado a cada imagem no sonho. Muitas pessoas vivem desse jeito, como se andassem nas nuvens, presas a antigos modelos mentais anormais que recriam continuamente a mesma realidade de pesadelo. Quando sabemos que estamos sonhando, é porque estamos despertos no sonho - outra dimensão da consciência se estabeleceu.

  •  A implicação da percepção de Sartre é profunda, mas ele próprio ainda estava identificado demais com o pensamento para reconhecer o pleno significado do que descobrira: uma nova dimensão emergente da consciência.